quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

François Villon

Balada em velha Língoa Franceza

Pois se bem seja o Sancto Padre,
D'alva e d'amicto adornado,
Armado só da sancta estola
Pela qual colga o Malfadado,
De maos talentos inflamado,
Morre de igual que os irmãos bentos,
Desta vida sendo soprados.
Enfim, a todos leva o vento.

Ou bem o de Constantinopla
Imperador, punho doirado,
Ou de França o rei que nas coplas
Sobre os demais foi celebrado
E que p'lo grão Deus adorado
Ergueo igrejas e conventos.
Se no seo tempo foi honrado,
Enfim, a todos leva o vento.

Seja de Vienne e Grenoble
o Delfim, tam bravo e prendado,
Ou os de Dijon, Salins e Dolles
Primos varoens assinalados,
Ou entam sejam seos criados,
Arautos, séquitos atentos,
Ficaram todos bem forrados?
Enfim, a todos leva o vento.

Príncipes, à morte são dados,
E todos, por mais que preventos.
Sejam aflitos, enfadados,
Enfim, a todos leva o vento.

(Tradução: Sebastião Uchoa Leite)



segunda-feira, 20 de junho de 2011

Paulo Mendes Campos

Sentimento do tempo


Os sapatos envelheceram depois de usados

Mas fui por mim mesmo aos mesmos
                                       [descampados

E as borboletas pousavam nos dedos de
                                        [meus pés.

As coisas estavam mortas, muito mortas,

Mas a vida tem outras portas, muitas portas.

Na terra, três ossos repousavam

Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.

As lágrimas correndo podiam incomodar

Mas ninguém sabe dizer por que deve passar

Como um afogado entre as correntes do mar.

Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz

Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.

Fizeram muitas vezes minha fotografia

Mas meus pais não souberam impedir

Que o sorriso se mudasse em zombaria

Sempre foi assim: vejo um quarto escuro

Onde só existe a cal de um muro.

Costumo ver nos guindastes do porto

O esqueleto funesto de outro mundo morto

Mas não sei ver coisas mais simples como a água.

Fugi e encontrei a cruz do assassinado

Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,

Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.

Meus pássaros caíam sem sentidos.

No olhar do gato passavam muitas horas

Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.

Não sabia que o tempo cava na face

Um caminho escuro, onde a formiga passe

Lutando com a folha.

O tempo é meu disfarce. 



sábado, 9 de abril de 2011

Lêdo Ivo

A queimada

Queime tudo o que puder:
as cartas de amor,
as contas telefônicas,
o rol de roupas sujas,
as escrituras e certidões,
as inconfidências dos confrades ressentidos,
a confissão interrompida,
o poema erótico que ratifica a impotência,
e anuncia a arterioesclerose,
os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas
os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.