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segunda-feira, 26 de maio de 2014

Dora Ferreira da Silva

Ritornello


Sempre sangrarão as cicatrizes?
                              O sono - irmão caçula da morte -
parece um corte vibrado a esmo.
Mendicância-errância se abraçam silenciosamente.

O mito que retorna
encontra-me quase insensível
                         à dor do recomeço.
Tropeço no antigo móvel
e não o reconheço. Foi o destino
que me levou a uma outra casa?
A poltrona insegura desvia a torrente do tempo
quando alguém sentado lia
farrapos da própria alma em autores prediletos.

Tudo o que foi passado
custa a morrer nos meus guardados.


Mais


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Gilka Machado
























Bailado das ondas

Vede-as, ei-las que vêm - eternas bailarinas
para a festa noturna e fádica do luar,
segue-as o coro alegre e álacre das ondinas:
vede-as, ei-las que vêm, todas juntas, bailar.

Seios nus, braços nus que flavas serpentinas
cingem, abstratas mãos de brancura polar,
surgem, despetalando orquídeas argentinas
sobre a pelúcia azul do tapete do mar.

De quando em vez, na praia, uma a sorrir se apruma,
desliza, rodopia e alva como de espuma
desnastra, erguendo o corpo em bamboleios no ar.

E a lua, entre coxins, muito pálida e loura,
em serena mudez de nobre espectadora,
pelas ondas alonga o indiferente olhar.



Mais poesia

quinta-feira, 20 de março de 2014

Geraldo Carneiro





cancan do exílio                          

o Brasil é uma ilha de tranquilidade
o Brasil é uma ilha
o Brasil é uma
o Brasil é?
ser ou não ser, esta é a questão
será mais nobre desafiar o tempo
etc. etc. e tal
ou desafiar o aparelho policial?
eu, se fosse você
brincando brincando
escolheria a primeira hipótese
democracia é o cacete




quinta-feira, 6 de março de 2014

Odylo Costa, filho



Poema da simples alegria


A alegria estava do lado de dentro da casca das 
                                                                 árvores
e subiu na manhã.


A alegria me trouxe um ramo claro de acácias
boiando numa cumbuca partida de mel.


A alegria me trouxe para perto do mar
e eu mergulhei a cabeça nos tanques da meninice.


Onde estais, arapongas, que vos ouço e não vejo?
Estais é no fundo do mar.
Estais é nas casas dos morros.
Estais é no ar.







ABL

Mais poemas

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mário de Andrade



Momento (Abril de 1937)

O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.

Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranhacéus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.

sábado, 24 de agosto de 2013

Manuel Botelho de Oliveira

Persuade a Anarda que ame


Anarda vê na estrela, que em piedoso
          Vital influxo move amor querido,
           Adverte no jasmim, que embranquecido
           Cândida fé publica de amoroso.

Considera no Sol, que luminoso
          Ama o jardim de flores guarnecido;
          Na rosa adverte, que em coral florido
          De Vênus veste o nácar lastimoso.

Anarda pois, não queiras arrogante
          Com desdém singular de rigorosa
          As armas desprezar do deus triunfante:

Como de amor te livras poderosa,
         Se em teu gesto florido e rutilante
         És estrela, és jasmim, és sol, és rosa?







sábado, 16 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

Princípio

A morta abriu o dia radioso
com a cortina da sua desdedida.
Partiu no meio os cabelos vagarosos
escorrendo ainda de lembranças,
vestiu o vestido precioso
e saiu à procura, sôfrega,
de outras tantas,
                             verdadeiras vidas.



A arte popular

Mais

Toda a poesia 

sábado, 9 de março de 2013

Menotti del Picchia

Lirismo

E todas as corolas
que se haviam fechado como narinas sensíveis
ao cheiro do dia
- cheiro de gás queimado, cheiro da turba suada -
abrem-se e põem-se a exalar loucos perfumes na noite.
E o guarda-noturno embriagado pelo aroma
tem uma crise lírica
e tenta tocar uma valsa com o apito.


ABL

Alguns poemas

José Paulo Moreira da Fonseca

O menino atropelado

A Anne Waltzdorf

Era negro o menino
morto sobre o negrume do asfalto.
Seu ombro sangrava
colorindo o brim desfeito pelos metais,
um ombro magro, uma coisa indefesa,
uma coisa mínima, e era toda a melancolia da terra:
os castigos, fardos, humilhaçãoes, a fome.

Era um pequeno ser
ali presente ao fim do mundo.

E nada havia a dizer,
a frase se guardava presa nos músculos da garganta,
próxima, urgente, desconhecida...
Só aquele menino soube gritá-la
entre a borracha e as ferragens,
e talvez nem tenha sido um grito, nem mesmo um som,
e em vão a sofrida imagem de seu corpo
tentava murmurá-la em nossos olhos baços,
sem fúria, sem lágrimas, triste como um remorso.





O pintor poeta

No blog do Noblat

Bio

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Régis Bonvicino

Canção (I)

Corpo impreciso
gengiva se
retraindo
por exemplo

este sapato
de vênus
cabeça de inverno
cada vez mais

cansaço íntimo
de metais
& vida,
ao menos, oscila

entre o degredo
de si
vidros se deitam
agora comigo



Site
Entrevista
Lido por Abu

Félix de Athayde

Poeta IV

Fazer
um poema
como se desfaz
um equívoco:

tecer
uma aranha
com fios
de navalha

propor
outra fome
para
o homem

fazer um tempo
noutro tempo
por exemplo.

Mais

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Torquato Neto

muito bem, meu amor
muito mal
meu amor
o bem o mal
estão além do medo
e não há nada igual
o bem e o mal sem segredo
as marchas do carnaval
muito mal, meu amor
muito bem

nem vem com não tem
que tem
tem de ter
na praça da capital
muito mal
meu amor
tudo igual
nada igual ao bem e o mal
2 (experimente é legal)
eu creio que existe o bem e o mal
mas não há nada igual
e tudo tem mel e tem sal

julho/71


Site
Música & poesia

domingo, 22 de julho de 2012

Olegário Mariano

O boi

                                     (Carducci)


Amo-te, ó pio boi! Um sentimento
De vigor e de paz tu me ofereces
Quando, impassível como um monumento,
O olhar nos campos verdes adormeces.

Preso à canga, momento por momento,
Mais útil e paciente me pareces:
O homem te ordena e tu no macilento
Volver dos olhos tristes, lhe obedeces.

Pela tua narina escra e fria
Teu espírito passa e é um hino ardente
Teu mugido cortado de agonia.

E em teu olhar que pelo azul se perde,
Se esconde longa e dolorosamente
Verde a planura do silêncio verde.




sábado, 21 de julho de 2012

Adélia Prado

Para comer depois

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Ruy Espinheira Filho

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh2QG-hlX4P_3LiEIFPeOoKiudBFUKVvEM73C5sUinrkCn0BCkI02OL20HiPebT3jwYamFSO58objJJdIWMtQT6ZxBNK0BdBsJ25UEUtujXtdj0DjCFrEEcT9H3Nxe7eyHMLd49JHOwj-93/s400/ruy02.jpgO que ler no poema
                       a Jacinto Prisco

O elfo insubmisso
em seu Grifo embruxado;
Pégaso nascendo

entre meninos cegos;

o vento soprando
janelas demolidas,
regendo uma orquestra

que ficou no mar;

o pássaro Sempre
inscrito no peito;
as tranças desfeitas

nos ombros curvados;

Lysis, a estrela,
ungindo a súplica
além da palavra;

a fonte secreta

perdida em si mesma,
como se perde a
areia na areia.



Entrevista

Na academia

Biblioteca

domingo, 15 de abril de 2012

Adalgisa Nery

Metrotone Adalgisa Nery

Saem de mim mundos distantes, diferentes, sem limite, sem o
                                             [tempo contado pelos homens.
Os espíritos da madrugada fogem dos meus olhos
E vêm mulheres que concebem gêmeos, bocas nas raízes dos
               [vegetais e minerais aumentando na crosta da terra.
O choque do adolescente que vê pela primeira vez um seio de
                                                                                [mulher,
Ouve o grito dos sentidos e sente a nostalgia do Paraíso.
O homem concebido no ventre da mulher
Já entra em luta com o que está no ventre da terra.
Ódios passeiam nas gerações.
Mãos que deviam abençoar carregam fuzis.
A vida está pendurada nos meus olhos.
Minha cabeça está solta do meu corpo e recolhe o Universo.

Info

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Metrotone