quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Torquato Neto

muito bem, meu amor
muito mal
meu amor
o bem o mal
estão além do medo
e não há nada igual
o bem e o mal sem segredo
as marchas do carnaval
muito mal, meu amor
muito bem

nem vem com não tem
que tem
tem de ter
na praça da capital
muito mal
meu amor
tudo igual
nada igual ao bem e o mal
2 (experimente é legal)
eu creio que existe o bem e o mal
mas não há nada igual
e tudo tem mel e tem sal

julho/71


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Música & poesia

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Joan Brossa

Na hora

Passam dois táxis. Um
traz a indicação <<Libre-Livre>>,
o outro <<Livre-Libre>>.
Escolho o segundo.

(Trad. Ronald Polito)


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Nuno Júdice

Génese

Todo poema começa de manhã, com o sol. Mesmo
que o poema não esteja à vista (isto é céu de chuva)
o poema é o que explica tudo, o que dá luz
à terra, ao céu, e com nuvens à mistura - a luz incomoda
quando é excessiva. Depois, o poema sobe
com as névoas que o dia arrasta; mete-se pelas copas das
árvores, canta com os pássaros e corre com os ribeiros
que vêm não se sabe de onde e vão para onde
não se sabe. O poema conta como tudo é feito:
menos ele próprio, que começa por um acaso cinzento,
como esta manhã, e acaba, também por acaso,
com o sol a querer romper.

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domingo, 22 de julho de 2012

Olegário Mariano

O boi

                                     (Carducci)


Amo-te, ó pio boi! Um sentimento
De vigor e de paz tu me ofereces
Quando, impassível como um monumento,
O olhar nos campos verdes adormeces.

Preso à canga, momento por momento,
Mais útil e paciente me pareces:
O homem te ordena e tu no macilento
Volver dos olhos tristes, lhe obedeces.

Pela tua narina escra e fria
Teu espírito passa e é um hino ardente
Teu mugido cortado de agonia.

E em teu olhar que pelo azul se perde,
Se esconde longa e dolorosamente
Verde a planura do silêncio verde.




sábado, 21 de julho de 2012

Anna Akhmátova

Eu perguntei ao cuco
quantos anos viveria...
O topo do pinheiro estremeceu,
o sol banhou a relva de dourado,
mas som algum perturbou a clareira...
Voltei então para casa.
A brisa fresca acariciava
a minha fronte escaldante.


1/6/1919
Tsárskoie Seló


(Trad. Lauro Machado Coelho)


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Livro dos Cantares I (She Keng)

O vestido verde

1. É cor verde o meu vestido,
    Verde com forro amarelo.
    O mal que tenho sentido,
    Se eu pudesse vê-lo findo!

2. É cor verde o meu vestido
    Verde com roda amarela.
    Está mágoa em que hei vivido,
    Pudesse enfim esquecê-la!

3. De seda verde somente:
    Tu mesmo assim o quisesse.
    Recordo de antanho a gente,
    P'ra o mal afastar de mim.

4. Fino ou grosseiro o tecido,
    Dá frio, quando faz vento.
    Nos antigos co'o sentido,
    E já me não apoquento.

(Trad. Joaquim A. Guerra, S.J.)

Info

Adélia Prado

Para comer depois

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.