quarta-feira, 23 de abril de 2014

Gilka Machado
























Bailado das ondas

Vede-as, ei-las que vêm - eternas bailarinas
para a festa noturna e fádica do luar,
segue-as o coro alegre e álacre das ondinas:
vede-as, ei-las que vêm, todas juntas, bailar.

Seios nus, braços nus que flavas serpentinas
cingem, abstratas mãos de brancura polar,
surgem, despetalando orquídeas argentinas
sobre a pelúcia azul do tapete do mar.

De quando em vez, na praia, uma a sorrir se apruma,
desliza, rodopia e alva como de espuma
desnastra, erguendo o corpo em bamboleios no ar.

E a lua, entre coxins, muito pálida e loura,
em serena mudez de nobre espectadora,
pelas ondas alonga o indiferente olhar.



Mais poesia

sábado, 5 de abril de 2014

Konstantínos Kaváfis

Volta


Volta outras vezes e domina-me,
frêmito amado, volta outras vezes e domina-me -
quando a memória do corpo despertar,
quando ao sangue retornar o desejo de outrora
e os lábios e a pele lembrarem e as mãos
sentirem-se como que tocadas de novo.

Volta outras vezes e domina-me, quando a noite
fizer com que os lábios e a pele se lembrem.

[1912]

Tradução de José Paulo Paes






Ítaca

Sobre

quinta-feira, 20 de março de 2014

Geraldo Carneiro





cancan do exílio                          

o Brasil é uma ilha de tranquilidade
o Brasil é uma ilha
o Brasil é uma
o Brasil é?
ser ou não ser, esta é a questão
será mais nobre desafiar o tempo
etc. etc. e tal
ou desafiar o aparelho policial?
eu, se fosse você
brincando brincando
escolheria a primeira hipótese
democracia é o cacete




domingo, 16 de março de 2014

Gastão Cruz

Elegia da esperança


2
Moves as palavras que palavras são
encontro diante distante e saudade
moves as palavras agora que
o mundo pois alastra e esquece
em todas as noites do corpo contando
que corpo contém palavras mais que
continente é pois distância palavra
quanto mais um homem dizendo palavras
disperso na terra na noite do mar
quanto mais de sangue depois de dizer
que a treva se faz e pode lembrar
e pode esquecer e pode a esperança
renascer ainda que disperso canse
e cante disperso diante do mar



Notícia

Entrevista

quinta-feira, 6 de março de 2014

Odylo Costa, filho



Poema da simples alegria


A alegria estava do lado de dentro da casca das 
                                                                 árvores
e subiu na manhã.


A alegria me trouxe um ramo claro de acácias
boiando numa cumbuca partida de mel.


A alegria me trouxe para perto do mar
e eu mergulhei a cabeça nos tanques da meninice.


Onde estais, arapongas, que vos ouço e não vejo?
Estais é no fundo do mar.
Estais é nas casas dos morros.
Estais é no ar.







ABL

Mais poemas

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Mário de Andrade



Momento (Abril de 1937)

O vento corta os seres pelo meio.
Só um desejo de nitidez ampara o mundo...
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.

Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranhacéus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia... É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.

sábado, 24 de agosto de 2013

Manuel Botelho de Oliveira

Persuade a Anarda que ame


Anarda vê na estrela, que em piedoso
          Vital influxo move amor querido,
           Adverte no jasmim, que embranquecido
           Cândida fé publica de amoroso.

Considera no Sol, que luminoso
          Ama o jardim de flores guarnecido;
          Na rosa adverte, que em coral florido
          De Vênus veste o nácar lastimoso.

Anarda pois, não queiras arrogante
          Com desdém singular de rigorosa
          As armas desprezar do deus triunfante:

Como de amor te livras poderosa,
         Se em teu gesto florido e rutilante
         És estrela, és jasmim, és sol, és rosa?