In: Poemas 1913-1956, seleção e tradução de Paulo César de Souza
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Dora Ferreira da Silva
Ritornello
Sempre sangrarão as cicatrizes?
O sono - irmão caçula da morte -
parece um corte vibrado a esmo.
Mendicância-errância se abraçam silenciosamente.
O mito que retorna
encontra-me quase insensível
à dor do recomeço.
Tropeço no antigo móvel
e não o reconheço. Foi o destino
que me levou a uma outra casa?
A poltrona insegura desvia a torrente do tempo
quando alguém sentado lia
farrapos da própria alma em autores prediletos.
Tudo o que foi passado
custa a morrer nos meus guardados.
Mais
domingo, 18 de maio de 2014
Eugénio de Castro
Un autre, plus heureux, va unir son
sort celui de mon amie. Mais quoiqu'elle
trompe ainsi mes plus chères espérances,
dois-je moins aimer?
Mackensie
Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.
Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Antes sentindo para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.
Sei que jamais hei-de possuir-te, sei
Que outro, feliz, ditoso como um rei,
Enlaçará teu virgem corpo em flor.
Meu coração no entanto não se cansa:
Amam metade os que amam com esp'rança,
Amar sem espr'ança é o verdadeiro amor.
Mais
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Gilka Machado
Bailado das ondas
Vede-as, ei-las que vêm - eternas bailarinas
para a festa noturna e fádica do luar,
segue-as o coro alegre e álacre das ondinas:
vede-as, ei-las que vêm, todas juntas, bailar.
Seios nus, braços nus que flavas serpentinas
cingem, abstratas mãos de brancura polar,
surgem, despetalando orquídeas argentinas
sobre a pelúcia azul do tapete do mar.
De quando em vez, na praia, uma a sorrir se apruma,
desliza, rodopia e alva como de espuma
desnastra, erguendo o corpo em bamboleios no ar.
E a lua, entre coxins, muito pálida e loura,
em serena mudez de nobre espectadora,
pelas ondas alonga o indiferente olhar.Mais poesia
sábado, 5 de abril de 2014
Konstantínos Kaváfis
Volta
Volta outras vezes e domina-me,
frêmito amado, volta outras vezes e domina-me -
quando a memória do corpo despertar,
quando ao sangue retornar o desejo de outrora
e os lábios e a pele lembrarem e as mãos
sentirem-se como que tocadas de novo.
Volta outras vezes e domina-me, quando a noite
fizer com que os lábios e a pele se lembrem.
[1912]
Tradução de José Paulo Paes
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