quinta-feira, 8 de março de 2012

Emílio de Menezes

Noturno
(Sugestões de um poeta, faminto)

Tudo cor de azeitona. Fim do mês.
Noite opípara: a lua, qual pedaço
De manjar branco, gira pelo espaço.
Ergue-se o monte como um bolo inglês.

Vejo a calda do oceano e a languidez
Da geleia d'arbustos que, em melaço
De orvalho, treme à aragem. Há um bagaço
De nuvens no ar. O mar, de vez em vez,

Lança n'areia espumas de cerveja...
Vejo um sorvete e até de abacaxi
Sob a forma de torre de uma igreja!

Pelo espinheiro além, quanto palito!
E as estrelas, no céu, longe daqui,
São biscoitos jogados no infinito!


O acadêmico

domingo, 4 de março de 2012

Tite de Lemos

God (short) story

Tudo o que eu como
e tudo pelo que sou comido.

A essência das flores
e a flor da essência das flores.

O que eu compreendo, que não é nada,
e o que eu não compreendo, que não é nada também.

O rinocerone
e o unicórinio.

As estações do ano
e a paralisia infantil.

A boca das coisas
e o ânus das coisas.

A carícia catatônica
e o elegantíssimo pós-escrito de Gustave Flaubert.

O bagulho embrulhado no jornal do dia
e o imortal reflexo do luar nas águas da baía



O açúcar do poeta